Eventos climáticos ampliam riscos para construção e podem impactar custos da moradia no Brasil

Crédito: Magnific
Estudo global aponta clima extremo, pressões financeiras e falta de mão de obra qualificada entre os principais riscos para a construção nos próximos anos. No Brasil, o avanço do El Niño e o histórico recente de desastres reforçam a importância de considerar a resiliência dos imóveis desde a escolha da localização até o desenvolvimento dos projetos.
Eventos climáticos extremos devem ganhar peso nas decisões sobre onde, como e a que custo construir nos próximos anos. O relatório global Beyond 2030: The Future of Construction aponta que clima extremo, pressões financeiras e escassez de profissionais qualificados estão entre os riscos capazes de comprometer cronogramas, elevar custos e interferir no financiamento de novos projetos. O estudo foi elaborado a partir da análise de 17 riscos para o setor e de entrevistas com 31 especialistas realizadas entre dezembro de 2025 e março de 2026.
O alerta ganha relevância no Brasil em meio ao El Niño. Em julho, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou que o fenômeno estava em curso e indicou fortalecimento até o fim de 2026. Ao mesmo tempo, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) classificou 2025 como um dos anos climaticamente mais extremos das últimas décadas no país, com recordes de temperatura, chuvas intensas e períodos prolongados de seca. Mais de 330 mil pessoas foram diretamente afetadas por ocorrências registradas ao longo do ano.
“Quando o risco climático passa a interferir no custo da obra, no seguro, no financiamento e na conservação de um imóvel ao longo dos anos, ele também passa a fazer parte da análise do mercado imobiliário. Conhecer as características de cada região, o histórico de ocorrências e a infraestrutura disponível será cada vez mais importante para corretores, investidores e consumidores tomarem decisões fundamentadas”, afirma Celso Pereira Raimundo, diretor-geral do Observatório Imobiliário Brasileiro.
Uma das conclusões do Beyond 2030 é que os riscos da construção estão cada vez mais interligados. Uma ocorrência climática pode interromper uma obra, pressionar o cronograma e elevar despesas, enquanto condições mais rígidas de financiamento reduzem a margem para absorver atrasos. Em grandes projetos de capital analisados pelo estudo, os custos ficam, em média, cerca de 80% acima do orçamento e os cronogramas ultrapassam em mais de 50% os prazos inicialmente previstos.
O relatório também destaca a segurabilidade como um fator relevante na análise da viabilidade dos empreendimentos. À medida que financiadores passam a exigir maior controle dos riscos, projetos localizados em áreas mais vulneráveis ou que não incorporem medidas adequadas de resiliência podem enfrentar coberturas mais restritas ou custos maiores de seguro. Segundo o estudo, dificuldades para assegurar um empreendimento podem levar financiadores a rever condições, reduzir recursos ou até postergar a liberação de capital.
“Para o mercado imobiliário, esse debate tende a ganhar cada vez mais relevância porque o risco climático começa a interferir diretamente na atratividade, no custo e na viabilidade dos empreendimentos. Incorporar dados sobre vulnerabilidade, infraestrutura e histórico de eventos extremos à análise dos imóveis será fundamental para reduzir incertezas e qualificar as decisões de quem compra, vende, investe e desenvolve novos projetos”, conclui Celso Pereira Raimundo.

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